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Comentário - Regina Szterenfeld
A parashá de hoje concentra princípios e fundamentos
básicos no Judaísmo. Desde a primeira orientação
de Deus à Avraham de sair de sua terra, até a última
(nesta parashá) de fazer a Milá, o Brit, percorremos muitos
momentos importantes. Alguns que são plenos em significados indicativos
de transformação, quando os dois - Avraham e Sara - recebem
alteração em seus nomes e outros verdadeiras ´saias
justas`, como a questão de Sara e o faraó ao chegarem ao
Egito, outros.
Vamos então entender melhor a sequência destas parashiot
iniciais de Bereshit e então, de posse de algumas ferramentas,
poder vivenciar em nós, esta incrível jornada de Avraham
e Sara.
Os sábios da Mishná nos ensinam que : "houve dez
gerações de Adão até Noé e outras dez
gerações de Noé até Avraham.". Rabbi
Zalman Baruch Melamed propõe um estudo onde Adão, Noé
e Avraham, marcam três fases no curso da evolução
da humanidade:
"Adão era a criação magnífica de Deus.
Ao criá-lo, Deus não tinha nem intermediário ou assistente.
Como resultado ele era o ser mais perfeito, jamais criado, na face da
Terra. Talvez esteja contido neste aspecto a principal ´deficiência`de
Adão. Por causa da sua perfeição excepcional lhe
faltava a capacidade de interagir com o mundo físico no qual ele
havia sido colocado; como resultado Adão se viu incapaz de elevar
toda a sua existência. Foi por esta razão que o seu encontro
com o mundo foi um ´fracasso`. Podemos comparar Adão à
uma árvore cujos galhos ainda são muitos em relação
a suas poucas raízes. "
Noé - como estudamos na semana passada - era um tzadik be dorotav
(um justo em sua época). Diferente de Adão, Noé obtém
sucesso vivendo em paz com o mundo físico e mantendo a sua conduta
correta. No entanto, ele assim com Adão não obteve êxito
em influenciar a sua geração e elevar aquilo e aqueles que
o cercavam. Ele era uma pessoa justa no âmbito individual que acreditava
que a melhor maneira de se lidar com este mundo - sem correr o risco de
fracasso ou desvio - era através do seu próprio distanciamento
de seu ambiente.
Avraham Avinu, nosso Pai Avraham, foi a primeira pessoa que conseguiu
unir o físico ao espiritual com êxito. Avraham percebe como
a missão central de sua vida a elevação da existência
de um nível para outro (o físico para o espiritual), ao
mesmo tempo mantendo todas as suas ligações com o plano
físico. A partir do momento em que ele descobre que existe UM criador,
que criou um mundo harmonioso, no qual entre não existe contradição
entre corpo e alma, ele tenta repassar esta mensagem aos outros sob todas
as formas possíveis. Com isso ele começa o difícil
processo de Tikun Olam, focalizando sua visão na direção
da sua meta principal: o dia em que ´Deus será UM, seu nome
UM`. (Zacharias 14:09)"
A Rabina Malka Drucker, complementa esta visão, incluíndo
alguns dados esotéricos e também trazendo a participação
de Sara em todo o processo:
"Avraham e Sara partem de Haran, mas isso não se dá
como o exílio de Adão e Eva, nem como a expulsão
da geração de Noé. Esse foi o deslocamento cósmico
necessário para nos conduzir, do espaço vazio, para o Lugar
(MAKOM, outra denominação de Deus).
Avraham e Sara foram mais do que abençoados, eles foram comandados
a ser uma benção para o mundo. Todos os inícios são
sombrios e como as coisas surgem ou as pessoas nascem, freqüentemente
é confuso. Malka comenta: enquanto escrevo este texto, minha mesa
está um caos, com livros abertos, anotações e papéis
espalhados em toda e qualquer superfície plana. E aí chega
o dia sublime, em que as palavras estão completas e refletem uma
ordem. Manter a fé em que o cosmos triunfará sobre a ordem,
é a essência do ser judeu.
Acreditar que a transformação é a glória de
ser humano também é uma característica judaica. Essa
parashá é um poderoso chamado, a cada ano, para se ter fé
na longa jornada para dentro de nós mesmos e para fora das nossas
vidas confortáveis, que nos trará uma nova Criação
- um novo self."
Só lembrando...No final da parashá Noach, lemos que
Avraham estava em Haran, porque este foi um ponto de parada na trajetória
que seu pai Terach, que seguia para Canaan. Porém ali morreu Terach
e ali Avraham permaneceu até os 75 anos, quando Deus dá
a orientação de Lech Lechá, sair e seguir. Este é
um detalhe importante para compreender que a trajetória para Canaan
já havia sido traçada muito antes do seu contato com a divindade.
A diferença aqui é que, na fala de ´Lech Lechá`,
Deus não esclarece à Avraham qual o destino da jornada,
orientando que vá ´à terra que te mostrarei`.
Uma vez que compreendemos a importância da conexão entre
mundo físico e mundo espiritual, e também que isso se dá
através de um processo de evolução, recebemos da
Rabina Shefa Gold, uma detalhada descrição da jornada que
precisamos percorrer, seus desafios e riscos, mas principalmente, suas
bençãos. "Shefa comenta: Estamos sendo abençoados
esta semana com um mapa para a jornada espiritual, o caminho o despertar
da alma. Considero ser esta a trajetória coletiva daqueles que
integram o Pacto da Aliança, porque ela descreve amadurecimento
da alma que está se elevando para estar no pacto com DEUS. Iniciamos
esta jornada do ponto aonde estamos. O convite para embarcar é
ouvido na encruzilhada da alma, bradando para todos os que possam ouví-lo.
Cada benção na jornada de Avraham contém um
desafio para a alma. Partindo de um mundo conhecido, sem conhecer o destino
para onde está indo - nosso desafio é acreditar na jornada
em si e arriscar ´ser ninguém`. Quando nos deparamos com
desapontamentos e tragédias, somos desafiados a nos render às
nossas expectativas e plantar as sementes da compaixão. Nossas
vidas se tornam uma jornada de purificação e quando somos
chamados a ´servir`, precisamos desenvolver e cultivar qualidades
necessárias à esta tarefa, este Serviço. Somos guiados
no caminho somente um o passo de cada vez, enquanto buscamos nossos mestres,
nossos guias, abertos para sua sabedoria, recebendo momentos de iniciação
(insights, um nível de compreensão especial). E então
passamos anos nos dedicando a integrar em nós estes momentos.
Cada iniciação/ insight, abre um caminho de expansão
da nossa perspectiva e somos novamente desafiados a permanecer focados,
enquanto alargamos nossa percepção, nossa visão.
Quando estes estados de expansão nos proporcionam um momento de
visão profética (uma noção que virá
mais adiante) o desafio aqui é permitir que estas visões
transformem nossas vidas, momento a momento.
Aceitando sobre nós o Pacto, o acordo de caminhar junto a Deus
com simplicidade e coração aberto nós também
realizamos a mitzvá da circuncisão do coração.
Neste ponto o desafio é continuamente seguir em frente e liberar
camadas de distorção e defesa que estão sobre nosso
coração, para que possamos receber a Verdade em sua essência
cintilante e luminosa." (Verdade / Realidade)
Todo processo de conexão pressupõe confiança. Foi
a partir de uma confiança cósmica em Deus , que Avraham
e Sara saem fisicamente do vazio (um espaço que já não
nos preenche), e seguem numa jornada cuja garantia é sua própria
eternidade.
Enfrentam dificuldades (após chegar à Canaan há fome
na terra), riscos (episódio com o Faraó no Egito), competição
( briga entre pastores de Lot e a separação dos bens) ,
usufruem riquezas, momentos de bravura (resgate de Lot), decepção
(falta de decendência de um filho para Avraham e Sara), recebem
a promessa divina de multiplicação como as estrelas do céu,
mudam seus nomes, o nascimento de Ismael, e a realização
da mitzvá do Brit- Milá.
Durante todo o tempo eles se mantém conectados no plano físico
em coerência com a espiritualidade e a fé neste Deus que
os orienta, parceiros entre si, originando todo um povo que, até
hoje confirmam e perpetuam, através do Pacto, a conexão
com as raízes que nos remetem ao Lugar, há Makom, onde reside
a confiança incondicional.
Shabat Shalom!
Regina Szterenfeld
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