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| Parashá Mishpatim - Regina Szterenfeld | ||||||
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Leis que estabelecem critérios para libertação
de um escravo, ou regras de como proceder se alguém cavar um poço
e uma pessoa, acidentalmente, cair dentro deste, podem parecer meio distantes
da nossa realidade. Porém leis que falam sobre agressão
e morte, proteção à viúva ou não receber
suborno, nos parecem perfeitamente aplicáveis no nosso dia-a-dia.
E quanto às leis de observância de Pessach ou à de
não cozinhar o cabrito no leite de sua mãe, como reagimos?
Estas são algumas dentre a vasta relação de leis
e regras apresentadas nesta porção da Torá. Parashát Mishpatim nos abençoa com o poder do discernimento
com relação às sutilezas no nosso modo de viver.
Nos é oferecida a tarefa sagrada de refinar nossas ações
que devem estar de acordo com a visão da totalidade e da conexão
que recebemos no Sinai. Começamos esta tarefa no contexto de um
sistema de valores da nossa cultura, do nosso tempo e do nosso lugar.
A Torá nos mostra um povo que está sendo orientado a expressar
justiça em seu mundo, de forma cuidadosa e exigente. Podemos seguir
o exemplo de nossos ancestrais discernindo os princípios de justiça,
aplicando-os às nossas vidas e ao nosso mundo. A palavra Mishpat é normalmente traduzida como lei, sentença
ou regra. A rabina Shefa Gold traz novo significado a este termo: impecabilidade.
Sem tradução exata em português, este termo vem da
tradição Tolteca que sugere este compromisso como ferramenta
de evolução. Cada palavra ou atitude reverberam e afetam
o Todo. Então o bem-estar do Todo precisa ser considerado. Esta
consideração se estende além do tempo e do espaço.
Desta forma nossas ações podem beneficiar ou prejudicar
as futuras gerações. O significado da palavra impecabilidade é "sem pecado".
A considerar que nossa tradição considera pecado, por essência,
aquilo que se faz contra si próprio, tudo o que sentimos, acreditamos
ou dizemos e que se volta contra nós mesmos, é um pecado.
Ser impecável é não contrariar nossa natureza. É
assumir a responsabilidade por nossos atos, sem julgamentos ou culpas.
Então: Do Mandamento "Não levantarás falso testemunho"
deriva a lei "Afastem-se das palavras falsas" (23:7), que na
tradição Tolteca se revela como " seja impecável
com a sua palavra". Quando uma mitzvá é repetida na Torá é
sinal para que prestemos atenção especial. Quando uma mitzvá
é repetida inúmeras vezes sabemos que esta não é
somente importante, mas deve fazer parte central da nossa jornada de evolução.
VeGuer lo toné velo tilchatsênu - ao estrangeiro não
enganarás e não oprimirás - esta mitzvá é
repetida duas vezes em Mishpatim. Pela primeira vez somos orientados a
não oprimir o estrangeiro, porque também nós fomos
estrangeiros no Egito. Esta consideração normalmente não se aplica.
Aqueles que sofrem opressão muitas vezes seguem oprimindo os outros.
A causa do sofrimento torna-se a fonte de poderes destrutivos. E a corrente
do sofrimento continua. O estrangeiro é um alvo fácil, reforçando
o ciclo da opressão. Então o desafio espiritual permanece:
transformar nosso sofrimento em compaixão pelo estrangeiro. Já a frase veatem yedatem et nefesh haGer
e vocês
conhecerão a alma do estrangeiro, deixa claro o tipo de familiaridade
que devemos ter com o estrangeiro, indicando a necessidade de uma identificação
compassiva neste encontro, estabelecendo a quebra da corrente da opressão. Outra forma de compreender Mishpatim seria fazendo uso do conceito
do Código da Aliança. Após o momento da Revelação
dos Asseret Hadibrot - as Dez falas , conhecidas como os Dez Mandamentos
- passamos para uma segunda fase na Iniciação do Monte Sinai,
através de regulamentos que promovem uma consciência maior
de responsabilidade. Considerando os Dez Mandamentos como Princípios
Fundamentais, pode parecer que Mishpatim vem a ser um exercício
legislativo complementar. Mas não se trata disso: Mishpatim trata
da aplicação dos princípios Divinos de Justiça
e Compaixão, baseada em um conhecimento das Leis que governam a
Criação. Assim, por exemplo, a Lei que diz que "se
alguém ferir seu escravo ou sua escrava com uma vara e o ferido
vier a morrer, será punido", não é uma demonstração
do quão dura é a lei da Torá, mas um reconhecimento
da causa e do efeito. O termo crucial é o verbo "será".
Isso não quer dizer que o homem simplesmente deva ser punido, mas
que, pela lei do balanceamento cósmico, tal coisa é inevitável,
uma vez que Guevurá - a sefirá da Justiça - visa
corrigir a injustiça e trazer a Existência de volta ao Equilíbrio. Talvez este olhar de que a punição não é
eminentemente externa ao ser, possa nos ajudar a compreender a famosa
expressão, também contida nesta parashá, "naassé
ve nishmá". Quando Moshé lê o livro da aliança
aos ouvidos do povo, este responde que "Tudo o que falou o Eterno
faremos e ouviremos". Aparentemente, pode sugerir uma expressão
de obediência cega e confiança absoluta, o que pode de fato
ser. Mas isso limitaria a percepção mais ampla de que quando
acreditamos em um equilíbrio Cósmico, nossa compreensão
pode tornar-se menos relevante. Assim, quando realizamos algo no fluxo do Equilíbrio Cósmico para só depois buscar compreender, introjetamos em nós o "código" em sua essência, em sua impecabilidade, percebendo e acolhendo estas leis além do tempo e do espaço. Shabat Shalom! Regina Szterenfeld - fev/2009 |