Parashá SHEMOT - Comentários


Regina Szterenfeld

Na parashá que lemos esta semana um grande clã se transforma em tribos. Após a morte de Iossef e de toda a sua geração, o Povo de Israel se torna numeroso e poderoso. Um novo Rei assume o Poder no Egito, e ele "não conheceu Iossef". O crescimento gradativo do Povo ameaça a situação, dando origem a algumas tentativas de piorar sua condição de vida, sendo escravizados e culminando no decreto do Faraó de exterminar os bebês meninos, que deveriam ser jogados no rio, enquanto que as meninas deveriam sobreviver. Neste ponto a ajuda das parteiras Shifrá e Puá é decisiva, na sua recusa em obedecer ao decreto.

É neste cenário que nasce Moshe e com grande ajuda de sua irmã Miriam, navega direto para o palácio do Faraó, onde é acolhido por sua filha.

Moshe é educado na corte, se envolve com questões de justiça social, favorece os oprimidos e os defende, tendo problemas com a polícia local. Neste episódio, há vestígios do surgimento de uma consciência de que ele pertenceria ao Povo de Israel, sugerindo o emergir de uma identificação a partir de uma atitude claramente impulsiva.
Moshe foge da cidade, viaja, casa-se com Tzipora e aprende conceitos de liderança pastoreando o rebanho de Yitró, seu sogro, sacerdote de Midian.

E é pastoreando que encontra um arbusto que queima e não se consome. Nesta cuidadosa percepção de momento, Moshe ouve um chamado de Deus. Deus se apresenta, como o Deus de seu próprio pai, Deus de Avraham, Itzchak e Iaakov. Instruções objetivas para a libertação do povo são dadas por Deus a Moshe e então se estabelece uma conversa, na qual este busca compreender melhor como cumprir sua missão, considerando suas limitações. Neste ponto é claro que não se trata de uma opção, e sim de uma obrigação, ordenada por Deus.
Se voltarmos nossa atenção para um arbusto que queima e não se consome, podemos perceber muito além...como comenta o rabino David Wolfe-Blank, podemos compreender esta visão como o despertar da nossa alma, ao descobrir que temos um lugar neste mundo. Uma crescente conexão com nossa alma é fundamental para seguirmos com nossa missão na vida.

Moshe segue então em sua jornada, acompanhado de Tzipora e de seus filhos, retornando ao Egito. E vai em direção à sua missão consciente de que este seria um grande desafio: foi avisado por Deus que receberia poderes para realizar feitos mas que, ao mesmo tempo, Deus iria endureder o coração do Faraó. Deus envia também Aaron para ajudar Moshe como porta- voz.

De início Moshe e Aaron precisavam convencer o povo de sua própria libertação. Numa reunião com os anciãos, Aaron transmite a mensagem de Deus a Moshe, enquanto Moshe realiza feitos à vista do povo. Uma vez que o povo entra em sintonia com a proposta de libertação, chega o momento de ir direto ao Faraó. Isto em contrapartida aumenta a carga de trabalho sobre o povo, o que provoca um questionamento por parte de Moshe. Deus então o tranquiliza, garantindo força para continuar na sua missão.

Esta parashá inaugura um novo livro. O livro anterior, Bereshit, fala da história da Criação do mundo e do registro Divino nos Humanos, a partir dos relatos de vida de nossos patriarcas e nossas matriarcas. Tudo isso foi " criado" ao longo do livro de Bereshit.

Quando entramos no livro de Shemot - Exodo, vivemos com mais consciência a história de nossa libertação. Ela instiga a alma a um despertar. A rabina Shefa Gold comenta que somente quando conhecemos e vivenciamos a experiência da jornada da escravidão para a redenção a cada dia, é que podemos saborear de verdade a liberdade, através do leite e do mel de nossa herança.

Nossa benção, a possibilidade de liberação, nasce a partir de literais "dores de parto". Moshe nasce num momento de desespero, onde somos oprimidos e compactados à menor possibilidade de definição do eu. Aquela semente da verdade e vitalidade é escondida e colocada numa "teiva", numa "arca". O que distingue uma arca de uma barco é a ausência de leme. É um veículo completamente sujeito ao destino, à vontade de Deus. Assim como a Arca de Noé, a esperança de um novo mundo é uma nova consciência que emerge.

Baal Shem Tov nos lembra que a palavra "teiva" também significa "mundo". O mundo preenchido pelo potencial é levado pela correnteza no rio da Vida.

É assim que começa nossa jornada na direção da consciência. Como aconteceu com Moshe, a semente da profecia se rende em confiança às mãos de Deus, através da água primordial. Então esta semente é acolhida pela jornada, abençoada pela experiência, educação, nutrição e inspiração, enviada a terras distantes, iniciada em sabedoria e sendo revelada aos segredos do deserto.

Neste ponto, nossos olhos se abrem à percepção do fogo. Num extraordinário momento de benção, Deus nos chama pelo nome duas vezes (Moshe, Moshe...), avançando do eu para a verdadeira essência interior que estava latente. E esta essência responde
"Hineni" - Aqui Estou!

Somos chamados à presença pela repentina percepção que o chão sobre o qual nos pomos em pé é sagrado. Somos comandados a retirar nossos sapatos, para que nada possa estar entre nós e este solo sagrado.

O livro de Shemot começa então nomeando os Filhos de Israel. De acordo com o pensamento Chassídico, um nome é o que conecta corpo e alma, juntos.

E é justamente esta a pergunta de Moshe a Deus: Qual o seu nome? E a surpreendente resposta: " EIHÉ ASHER EIHÉ - " Serei o que Serei" -diga a eles, Serei me enviou a vocês."
Nem sempre um nome é um nome. Neste caso, precisamente e preciosamente é inominado, é uma percepção.

Seria este um Deus anônimo?

O rabino Jacobson comenta que Nomear algo é descrever algo. Então Deus, que é infinito e indescritível, não pode ser nomeado. De fato, Deus não tem nome, somente nomes - descrições de vários padrões de comportamento que podem se relacionar à Sua influência em nossas vidas.

Cada um dos "nomes" divinos descreve algum atributo através do qual Deus escolheu para se relacionar com Sua criação. ELOHIM descreve o atributo Divino da Justiça, IHVH descreve a concepção da Compaixão. EIHÉ - Serei, o nome pelo qual Ele se apresenta a Moshe, tem uma conotação de Ser e Existir.

Esta seria a matéria prima do processo de Libertação: SER! A consciência de que SOMOS!!

Shabat Shalom!!!

fontes de inspiração:
" CDEEP - Rabbi Shefa Gold
" Meaningfulife - Rabbi Simon Jacobson

Regina Szterenfeld
Dez/2007


PARASHÁ